O conceito de liberdade em “A Teoria da Bolha de Sabão” (posfácio do livro)

Nota: há inúmeros spoilers contidos neste texto, incluindo o desfecho da história. Se você não leu o livro ainda, eu sugiro que saia imediatamente e só retorne quando chegar ao final. Este é um esclarecimento sobre o conceito de ‘liberdade’ que permeia todo o enredo.

A princípio, o tema ‘liberdade’ não fica muito explícito em A Teoria da Bolha de Sabão. Porém, como eu mesmo já afirmei outras vezes, esse livro é “sobre libertar-se da bolha a qual estamos acostumados e olhar para além dos muros limitadores de uma pequena cidade – e dos muros mentais que precisamos derrubar”. Em outras palavras, os ‘muros mentais’ a que me refiro são as especulações, os preconceitos, e a visão estereotipada, exagerada e distorcida da realidade.

Em termos sociais, eu sinto que a protagonista do livro (Christa Claret) representa o cidadão alienado. Ela vê o mundo ao seu redor como lhe é atrativo. Aos olhos de Christa, a sua melhor amiga é uma “loira burra que usa rosa” (estereótipo), seus pais são chatos e grudentos (padrão de pensamento adolescente), e ela não liga pra nada (“egocêntica!”). Ao entrar na faculdade, Christa acha que não haverá problemas em continuar “a ver superficialmente”, no entanto: matam um de seus melhores amigos, a acusam pelo homicídio e retratam-na como “suspeita” na capa de todos os jornais. Daí em diante a coisa muda.

Essa primeira acusação, que ocorre no final do capítulo 2, “Você é a principal suspeita pelo assassinato de Jonathan Waldmann” é o choque inicial. É a primeira faísca da tempestade que ocorre no interior da mente de Christa ao longo do livro. É um gostinho do amadurecimento. Christa pisca os olhos e no capítulo seguinte e já está no carro de polícia indo depor. O primeiro dia de faculdade devia ser comum, mas alguém esbarra no jogo de xadrez e mistura todas as peças. Perde o controle quem antes tinha o poder. A própria “rainha das situações“.

A partir deste momento, a “verdade” que Christa nos apresentou nos dois primeiros capítulos começa a perder o sentido. A “verdade” nos tinha sido mostrada por um único ponto de vista: isolado, hipnotizado, 100% tendencioso (de nossa protagonista, lembrando, alienada). Christa então se compromete a descobrir o *verdadeiro assassino de John, esbarrando em “verdades” que abalam a sua percepção da realidade. Ela percebe que não conhecia realmente a John, nem a Laura, nem a seus pais, nem a si mesma. Na busca pela verdade, Christa percebe-se envolta por mentiras. A aceitação da personagem por essas verdades imprevisíveis é o amadurecimento. Ela abraça o luto do amigo, põe um pezinho numa paixão, e assim vai, aos poucos, vivendo a própria vida.

O segundo choque vem quando Christa é presa, na passagem para a parte 2, “O Verdadeiro John”. Ao final do julgamento, a personagem deixa de “fluir” com a sessão e se fixa novamente numa certeza. Ela acredita que o Universo conspirará a seu favor, e que Rex será condenado, mas aí chega imprevisibilidade da vida e a derruba com a cara no chão. Depois de presa, ela começa a se questionar profundamente quanto ao limite entre ‘a realidade como é’ e ‘as ilusões idealizadas’ por sua mente “adolescente”. Quando Christa aceita que não conhece a todo mundo assim tão bem, outra pequena porta se abre.  A prisão maior, como podemos notar, não é a física, de concreto e com grades nas janelas. A maior prisão é a do pensamento. Eram os pensamentos de Christa que a torturavam na cela, não o lugar em si. Era a falta de maturidade e, consequentemente, de aceitação.

Logo na dedicatória do livro,

“Para Matheus, Pgabe e Viviane,
que ajudaram Christa a se libertar
das profundezas da minha mente.”

nota-se um trocadilho com o sentido de liberdade nesta história.  Pois (como descobrimos no final) Christa não libertou-se apenas da minha mente com esta história, mas libertou-se da própria. Os capítulos são pautados no mistério, mas a essência da história está no amadurecimento da personagem. Na desconstrução de uma personagem alienada, presa à própria mente, transformando-se num ser pensante, questionador, vivo de fato. No decorrer dos capítulos, vemos Christa desistir de ideias, despir-se de achismos, até chegar ao que eu chamaria de uma liberdade mental e física.

O atingimento dessa liberdade me remete a diferentes símbolos. Me lembra o “fluir com a existência”, provindo do budismo; me lembra o nascer de um bebê, que ainda é puro, e que ainda não foi envenenado pelo mundo exterior; e me lembra, principalmente, o útero materno. Lá onde é tão seguro, quentinho, quieto, que vive-se apenas na essência de si mesmo. No útero materno é onde somos livres. Ao sairmos, ficamos presos por tudo o que existe no plano físico.

O (local) útero materno é representado no livro pela caverna no subterrâneo, que conhecemos no final da parte 2. É uma caverna, então é oco, é útero, é espaço aonde se entra. Fica no subterrâneo porque não é superficial, não é “aparência”, não é “o que está por cima”. Os túneis são os canais que levam ao útero. E o renascimento da Christa que pulou no lago cintilante está muito ligado ao nascimento de um novo ser. A caverna representa esse lugar no interior de nós mesmos que devemos acessar para alcançar a liberdade de ser. É onde está a origem. Dali nascemos virgens de pensamento, de ideologias, de achismos baratos e de certezas absolutas. Christa decide pular dentro do lago como um bebê que sai do útero: sem nenhuma certeza, nua, confiando na dúvida.

Ao pular no lago, Christa sai da bolha dando a luz a uma nova si mesma. Neste momento, temos o terceiro choque: o coma. Na parte 3, “A Verdade”, descobrimos que os personagens estavam em coma. Descobrimos que o universo do livro foi apenas um pensamento retardado, uma bolha mental. E descobrimos também a teoria: que cada pessoa tinha sua própria missão dentro da bolha, ou seja, que cada pessoa precisaria sair a sua maneira. Christa precisava resolver questões de amadurecimento, bem como Laura e John. O coma representa, também, esse estado de silêncio e paz que necessitamos para o conhecimento mais aprofundado de nós mesmos. Significa que, antes de pular de uma fase para outra (ex: passar da escola para a faculdade), devemos primeiro nos conhecer em profundidade. Precisamos saber escolher para escolher o caminho certo. Mesmo que demore mais de um ano, como foi o caso de Christa.

Eis a ligação entre corpo e mente, que é tão reforçada nas últimas páginas: a teoria não mostra o coma apenas como uma paralisia do corpo, mas como paralisia do ser. Vive em coma quem fica estagnado nas próprias ideias, não busca o outro lado, acredita somente na verdade que lhe é convencional. Essa pessoa é a Christa mimada e alienada dos dois primeiros capítulos. Ao assumir responsabilidade pela própria vida e aceitar as transformações imprevisíveis, Christa se liberta. Assim, está pronta para o mundo lá fora.

Conforme o trocadilho da dedicatória, Christa literalmente acorda do coma no leito do hospital na parte 3. E, metaforicamente, é como se a vida dela na faculdade não passasse de um pensamento. Uma possibilidade. Quase uma hipótese do que aconteceria se ela entrasse na faculdade de jornalismo. Numa síntese, eu diria que A Teoria da Bolha de Sabão uma descrição minuciosa do que se pode imaginar quando a mente se acalma.

*

*verdadeiro assassino de John: 

  • como descobrimos nas últimas páginas, o verdadeiro assassino de John era o próprio John. Ele não encontrou a saída do universo da bolha: sufocou com as próprias certezas. Estava tão certo de que encontraria a Teoria enterrada na fábrica de termômetros que não parou para olhar ao redor. Ficou tão fixo em limpar a sujeirinha que não percebeu as paredes desabando. Se detectasse o próprio vício de comportamento também se libertaria.

Ficou interessado em conhecer mais? Comece a ler aqui. Ou adquira  sua cópia digital na Amazon.com.

Acompanhe as entrevistas sobre o livro na agenda de divulgação.

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