Lembranças de infância: Rodeio

Local: Rodeio da Anta *Pequena comunidade do interior onde vivi com a minha família durante grande parte de infância. Éramos fumicultores.

*

Estávamos na estufa de fumo, eu e meu pai. Ele já estava suado, tirando lenha a lenha da pilha e jogando na caçamba da tobata. Eu observava. De repente, ou nem tão de repente assim, papai levantou uma grossa tora de madeira revelando uma cobrinha enrolada ali dormindo. Era um filhote de jararaca. Ele girou a tora rapidamente nas mãos e deu uma paulada na cabeça do pobre bicho. O filhote se desenrolou e caiu na grama, contorcendo-se com a cabeça esmagada. A cobra já estava morta (acho eu), mas não parava de se mover. Peguei pelo rabo e disse que ia mostrar para minha mãe. Corri até em casa, que ficava logo atravessando a estrada, empurrei o portão de ferro “croonk” e fui para o quarto dos fundos, que ela estava limpando.

Mãe, eu tenho uma surpresa! – eu disse, segurando o bicho nas costas.

Ela interrompeu a varredura do assoalho e eu levantei o animal (ainda em movimento) a menos de trinta centímetros de seu rosto. Houve um grito de horror, uma vassourada no lombo e a lembrança se esvaiu.

320281_177337365735116_1058555086_n

a estufa e a estrada

*

Era noite de cuidar do fogo da estufa. O fumo colhido e envaretado “assava” nos estaleiros da estufa, portanto era necessário que dormíssemos ali ao ar livre. Papai devia despertar a cada duas horas, checar a temperatura do fogo e acrescentar uma ou duas lenhas. Como eu era criança e gostava de dormir na rua, me juntei a ele. A cama foi posta de frente para a fornalha (justo no inverno, não havia nada melhor) e papai dormiu. Eu, inquieto que era, levantei e fui brincar descalço, na terra, com nossa gata Preta. Ela estava prenha, a barriga parecia uma bexiga d’água a beira da explosão. Num determinado momento da noite bateu o sono, levei Preta para a cama conosco e adormeci. Horas mais tarde: MIAAAU!

Algum de nós dois (provavelmente meu pai) rolou por cima da Preta e a esmagou, forçando uma gestação prematura. A cama ficou toda ensanguentada, nós acordamos agitados e eu me entristeci vendo os filhotes já mortos. Não lembro se algum sobreviveu, mas os abortos foram comidos pela mãe.

 

558273_177337495735103_1964764819_n

A cama ficava ao lado desta tecedeira.

*

Era costume nosso brincar de “clubinho”. Nara (minha prima) e eu arrumávamos um galinheiro velho (ou um paiol menos usado) e lá sentávamos imaginando infinitas atividades. Para nós, o mundo real não passava daquele pedaço de rio que dividia as nossas casas, então no clube planejávamos e depois saíamos a explorar pela mata. Costumávamos moldar o barro, pescar no açude, ou construir pequenas represas com as pedras do rio. Num desses dias fomos ao clube, nos fundos da granja de porcos do tio Miro, e Nara me mostrou suas bolachas de barro. “Come uma“, ela disse. “Mas não é de verdade, né?“, eu respondi, sabendo que era de barro. “Come pra ver”, reforçou Nara. E eu comi. Crianças… 

*

A casa do interior em que vivíamos não era apenas nossa, mas também da minha Nona Maria e do Nono Eloadir. Nos finais de semana eles vinham ao Rodeio e repousavam num quartinho já reservado ao casal. Nesse fatídico dia, os meus pais subiram o morro (roça) e eu fiquei em casa cuidando do fogo, pois ainda era pequeno demais. Fui para o quintal e comecei a apanhar flores, verduras, temperos, ervas daninhas, dentre tantas outras variedades de mato, e coloquei numa panela velha e para “fazer poção”, como eu mesmo chamava. Enchi a panela com água e acrescentei sal, azeite, vinagre, açúcar, pó de sorvete, terra e farinha de trigo. Dei uma boa mexida tapando o nariz, derramei numa chaleira e levei ao fogão a lenha para esquentar. Não demorou muito os meus nonos chegaram.

Fui auxiliar meu nono tirando as malas do carro, enquanto a nona tomou frente e se adentrou na cozinha. Só me lembro de não conseguir avisar a tempo. Ela parou ao lado do fogão, enfiou uma colher pelo buraco da chaleira, assoprou de leve e abocanhou para checar “se estava bom de açúcar”. Indescritível a expressão dela naquele momento, mas eu confesso que me contorci pelo assoalho de tanto que ri. Tragédias a parte, hoje, nona, eu te peço perdão.

*

394485_177336112401908_2041284904_n

⬆ TERRA DOS SONHOS 1,5 KM

Lembranças de infância é meu registro pessoal para manter guardado o que se perde da memória. É como foi minha história.
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s