Crônicas de Beatriz #1: O Sapato

Mamãe chega em casa sempre em cima deles. Ela abre a porta, se abaixa no tapete e faz aquela cara de quem comeu e não gostou. Depois tira do pé e suspira de alívio: “ufa, estavam me matando”, é o que diz. Na escola eu já ouvi isso também, mas não em relação aos sapatos: foi na aula de biologia. A professora Andreia mostrou os animais perigosos da selva e disse que ninguém chega muito perto porque eles podem nos matar. Quando eu voltei pra casa naquele dia, vi a mamãe no tapete e perguntei:

– Mãe, por que você usa isso no pé?

O sapato dela é baixinho na parte dos dedos, mas atrás sobe igual a uma montanha-russa. O calcanhar da mamãe fica lá em cima e ela precisa caminhar sem cair: é mesmo uma aventura.

– É o que nós, mulheres adultas, usamos pra ir lá fora – disse ela pra mim. – É bonito.

– Mas você deixaria um crocodilo morder seu pé? – disse eu depois.

– Beatriz, que pergunta. De onde você tirou isso?

– É que esse sapato fica te matando. Quando as coisas estão nos matando, melhor não chegar perto delas. Senão a gente pode morrer.

A mamãe apoiou a mão na pia ao lado da porta para rir.

– São diferentes formas de matar, filha. Quando eu falo que está me matando é só uma expressão, não é de verdade.

– Diferentes formas? Então tem como matar mais e matar menos?

Sentei no piso em frente a porta pra olhar o sapato melhor. Mamãe pensou um pouquinho.

– Eu digo que está “matando” porque dói quando eu estou usando, mas nem por isso eu vou perder o pé.

– Mas também dói quando um crocodilo morde na gente, não dói?

– Aí são diferentes formas de doer. Doer mais e doer menos. Mas você entendeu que o sapato não está realmente me matando?

Não sabia se tinha entendido.

– O papai parou de fumar porque o cigarro estava matando. Então não tava matando de verdade, igual ao crocodilo, mas de mentira, igual ao sapato das mulheres adultas?

Enquanto eu me espreguiçava no chão, mamãe arregalou os olhos.

– Nesse caso… é um matar de verdade, mas num nível baixo. O cigarro do papai era uma forma branda de matar.

– E fumar cigarro dói?

– Não, Beatriz… só pra mamãe que está por perto.

– Se não dói, como ele sabe que está matando?

– Você não quer trocar de assunto?

– Eu acho que a gente não devia fazer as coisas que doem. Só as coisas boas. Depois que o papai parou então não doeu mais você, né? Que bom.

– Não… agora estamos bem melhor.

– Que bom.

Depois da conversa, a mamãe não usou mais os sapatos de montanha-russa. Ela trocou pelos brinquedos baixinhos. É divertido igual, mas sem o risco de morrer.

*

‘CRÔNICAS DE BEATRIZ’ É UM PROJETO TEXTUAL EXPERIMENTAL. BEATRIZ É UMA PERSONAGEM BRASILEIRA FICTÍCIA QUE CONTA (ATRAVÉS DE PEQUENOS TEXTOS) SOBRE O PRÓPRIO COTIDIANO, A FAMÍLIA, E O COMPORTAMENTO HUMANO. PELO OLHAR INFANTIL ELA OBSERVA ASPECTOS DA SOCIEDADE, SE QUESTIONA, E PROCURA A OPINIÃO ADULTA PARA TENTAR COMPREENDER. A ESSÊNCIA DAS CRÔNICAS, PORÉM, NÃO SE ENCONTRA NO QUE DIZEM OS ADULTOS. MAS NO MODO COMO BEATRIZ ENXERGA A REALIDADE AO SEU REDOR. ESTE, SIM, É O GRANDE APRENDIZADO.
O OBJETIVO DESTE PROJETO É LEVANTAR UMA DISCUSSÃO SOBRE A IMPORTÂNCIA DO QUE DIZEM AS CRIANÇAS. PRETENDO, TAMBÉM, REVELAR CERTAS QUESTÕES DO “PENSAR” ADULTO QUE EU DISCORDO COMPLETAMENTE. ACREDITO QUE AS RESPOSTAS PROS PROBLEMAS COTIDIANOS NÃO ESTÃO NAS DISCUSSÕES, EMBATES, OU NAS BRIGAS LEVIANAS. MAS NA INGENUIDADE DA CRIANÇA QUE OLHA TUDO DE FORA.
SEJA BEM-VINDO AO UNIVERSO GIGANTESCO DA PEQUENINA BEATRIZ.
– GEAN ZANELATO.
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